
Marc Bloch é, na minha mais sincera opinião, um dos historiógrafos mais distintos e influentes do século XX; distinto porque a sua metodologia baseou-se numa renovação dos aspectos temáticos e técnicos, oferecendo novas perspectivas do que era já tido como certo; influente, porque influenciou uma inteira geração de historiadores que hoje são tidos como grandes profissionais dentro da área.
O texto que se segue faz parte de uma importante obra dele
"Introdução à História".
"
As gerações imediatamente anteriores às nossas, das últimas décadas do século XIX e dos primeiros anos deste, viveram como que alucinadas por uma imagem muito rígida, uma imagem verdadeiramente comtiana das ciências do mundo físico. Alargando ao conjunto das aquisições do espírito esse esquema prestigioso, parecia-lhes não poder existir conhecimento autêntico que não conduzisse, mediante demonstrações, logo irrefutáveis, a certezas formuladas na forma de leis imperiosamente universais. [...] Ora a nossa atmosfera mental já não é a mesma. A teoria cinética dos gases, a mecânica einsteiniana, a teoria dos quanta alteraram profundamente a ideia que ainda ontem toda a gente formava da ciência. Não a apoucaram. Mas tornaram-na mais flexível. Substituíram, em muitos pontos, o certo pelo infinitamente provável; o rigorosamente mensurável pela noção de eterna relatividade da medida [...] Estamos portanto doravante muito mais preparados para admitir que um conhecimento merece o nome de científico ainda que não seja susceptível de demonstrações euclidianas ou de imutáveis leis de repetição. Aceitamos muito mais facilmente fazer da certeza e do universalismo uma questão de grau. Não sentimos já a obrigação de procurar impor a todos os objectos do saber um modelo intelectual uniforme, haurido nas ciências da natureza física; pois que até nesse domínio tal modelo deixou de ser inteiramente aplicado. Ainda não sabemos bem o que virão um dia a ser as ciências do homem. Sabemos que para existirem - continuando é claro a obedecer às regras fundamentais da razão - não terão de renunciar à sua originalidade, nem envergonhar-se dela".
Marc Bloch,
Introdução à História, pp.21-22.
O texto citado defende que a corrente historiográfica predominante nos finais do século XIX, e inícios do XX, já não se adequa à alteração então efectuada dentro do pensamento científico e que, por esse aspecto, é preciso renovar os paradigmas legitimadores da história como ciência. O pensamento científico, que caracterizava essa corrente historiográfica já ultrapassada, era o que se designava de positivismo.
Embora já possuísse uma prática científica que remontava ao século XVII, a história só viu reconhecido o seu estatuto como ciência na 2ª metade do século XIX, no contexto do pensamento científico positivista: baseava-se numa fé teleológica de contínuo progresso científico e de certezas científicas inabaláveis. Pode-se assim afirmar que a primeira corrente historiográfica científica é a corrente positivista ou escola metódica (baseava-se em métodos e objectivos científicos e não literários, filosóficos ou artísticos).
Marc Bloch ao citar "
as gerações imediatamente anteriores às nossas, das últimas décadas do século XIX e dos primeiros anos deste, viveram como que alucinadas por uma imagem muito rígida, uma imagem verdadeiramente comtiana das ciências do mundo físico” está a criticar a corrente positivista quanto à sua rigidez e visão objectiva dos fenómenos observados. A corrente positivista defendia a noção de objectividade na História, isso é, que todo o conhecimento histórico era um facto histórico e que o papel do historiador era somente o de interpretar e descrever da forma mais absoluta o conhecimento das fontes (privilegiando os documentos escritos); era um modelo mecanicista no que dizia respeito à relação do conhecimento entre sujeito (historiador) e objecto (fonte): o sujeito era o espelho que reflectia o conhecimento passivamente, tal como ele existia no objecto, de uma forma mecânica e imparcial. Essa produção de conhecimento baseava-se, teoricamente, numa metodologia aceite pela comunidade científica; Marc Bloch faz indicação dessa metodologia: “
alargando ao conjunto das aquisições do espírito esse esquema prestigioso, parecia-lhes não poder existir conhecimento que não conduzisse, mediante demonstrações, logo irrefutáveis, a certezas formuladas na forma de leis imperiosamente universais”. Pode-se assim afirmar que outra característica dessa corrente era o estabelecimento (ou tentativa) de leis irrefutáveis.
O positivismo histórico contribuiu em larga escala para o reconhecimento da história no seio das várias comunidades científicas ainda por algumas décadas, porém ela caiu em desuso na sequência da reformulação das teorias do conhecimento e a concepção geral do conhecimento. Os paradigmas foram assim alterados. Tal como o autor afirma”
ora a nossa atmosfera mental já não é a mesma. A teoria cinética dos gases, a mecânica einsteiniana, a teoria dos quanta alteraram profundamente a ideia que ainda ontem toda a gente formava da ciência. Não a apoucaram. Mas tornaram-na mais flexível. Substituíram, em muitos pontos, o certo pelo infinitamente provável; o rigorosamente mensurável pela noção de eterna relatividade da medida”, várias teorias científicas, como a da relatividade de Albert Einstein, abalaram o dogma da certeza do conhecimento científico, provando que tudo era relativo e subjectivo, tendo assim consequências no seio do pensamento histórico; abalando os pilares da objectividade e certeza histórica que caracterizavam o positivismo. Além dessa alteração do pensamento científico, o positivismo também foi abalado por outros acontecimentos, tais como as Guerras Mundiais e a criação, e uso, das bombas atómicas; esses acontecimentos abalaram a fé de que o progresso científico só iria contribuir para o bem da humanidade.
Foi nesse contexto que alguns historiadores franceses se dedicaram à reformulação dos paradigmas do estatuto científico da História. Marc Bloch e Lucien Febvre eram dois desses historiadores vanguardistas, eles criam em 1929 a revista “
Les Annales d’Histoire Économique et Sociale” ou mais conhecida por Annales. Essa revista apresentou-se com grande abertura para novas ideias como metodologias e temáticas e esse aspecto está presente quando o autor cita que “
ainda não sabemos bem o que virão um dia a ser as ciências do homem. Sabemos que para existirem - continuando é claro a obedecer às regras fundamentais da razão - não terão de renunciar à sua originalidade, nem envergonhar-se dela”.
A
Annales teve um grande impacto dentro da comunidade historiográfica, criticando a corrente positivista em vários aspectos, entre os quais: o privilégio atribuído aos factores políticos, desprezando factores de índole económica, social e cultural; a atenção quase exclusiva prestada aos documentos escritos, negligenciando outras fontes não escritas como as arqueológicas e artísticas; o especial valor atribuído ao facto singular e a sua ocorrência no tempo curto, sem prestar atenção a outras espessuras temporais como o tempo médio e o tempo longo; a falta de diálogo interdisciplinar com outras ciências sociais e humanas, para o entendimento do mesmo objecto de estudo: o homem.
Foi a partir dessas críticas e da alteração do clima científico que esses fundadores da
Annales construíram o “
Discurso da História Nova”, criando assim uma nova corrente historiográfica (História Nova) assente em novos paradigmas. Entre esses novos paradigmas poderemos encontrar os conceitos de
História Total, História Explicativa e História Comparativa;
- Por
História Total entende-se a atenção prestada a todas as manifestações do homem tanto na esfera colectiva como na individual; para isso houve um alargamento das temáticas (económicas, sociais, culturais, mentais, etc.) que resultou de uma maior interdisciplinaridade entre a História e outras ciências sociais e humanas, tal como uma maior diversificação das fontes;
- A
História Explicativa era fundamentada pelo conceito de história – problema; não narrando somente os fenómenos históricos por uma relação de causa e efeito como se sucedia na corrente positivista, mas colocando questões de forma a esclarecer o porquê, como e quando;
- A
História Comparativa era baseada na preferência dada ao estudo de séries, em vez do estudo de eventos isolados, com o intuito de estabelecer certos padrões e tendências; os métodos estatísticos foram amplamente utilizados para esses fins.
A
História Nova propunha-se assim a estudar “
todos os homens e o homem todo”; “todos os homens” no aspecto de dar preferência ao colectivo de indivíduos e não simplesmente aos “grandes”; o “homem todo” no sentido de atribuir o mesmo valor a todas as manifestações do homem, para a sua melhor compreensão.
A partir dos finais da década de vinte a História Nova começou a impor-se como corrente historiográfica, contribuindo em muito para um melhor conhecimento através da compreensão e dominando o campo da historiografia até aos anos 70.
Georges Duby, Jacques Le Goff, Fernand Braudel e Marc Ferro são alguns dos autores que mais se destacaram dentro dessa corrente além de Lucien Febvre e Marc Bloch.
Pedro Santos, 14 Dezembro de 2009